Trecho de entrevista concedida à publicação nova-iorquina Business of Home, na coluna Trade Tales, sobre as dinâmicas da prática arquitetônica ao trabalhar com amigos, familiares e clientes próximos.
Projetar para pessoas com quem já existe uma relação prévia transforma naturalmente certas dinâmicas do processo. Em arquitetura, familiaridade pode representar tanto uma vantagem quanto uma responsabilidade adicional.
Existe, muitas vezes, uma compreensão mais intuitiva sobre como aquela pessoa vive, o que valoriza, como ocupa os espaços e de que forma constrói sua relação com memória, objetos e cotidiano. Essa leitura prévia pode enriquecer o processo, já que projetar nunca se resume a organizar programas ou compor formas. Trata-se também de interpretar modos de viver.
Mas proximidade não deveria significar informalidade irrestrita. Em muitos casos, acontece justamente o contrário. Quanto maior a familiaridade, mais importantes se tornam clareza, estrutura e limites bem definidos. Processo, comunicação e alinhamento de expectativas deixam de ser apenas ferramentas operacionais e passam a ser formas de cuidado, não apenas com o projeto, mas também com a própria relação.
A ideia de tratamento excepcional costuma parecer intuitiva, mas a prática mostra que consistência protege melhor tanto o trabalho quanto as pessoas envolvidas. O mesmo rigor aplicado a qualquer projeto passa a ser ainda mais relevante quando existe um vínculo anterior. Não por distanciamento, mas por respeito.
Ao mesmo tempo, a arquitetura frequentemente produz o movimento inverso. Clientes que chegam sem qualquer proximidade inicial acabam se tornando relações de afeto ao longo do processo. Talvez porque projetar, inevitavelmente, envolva escuta, confiança e interpretação sensível da vida cotidiana.
No fim, a proximidade pode alterar nuances, mas não os fundamentos da prática.
Raphael Wittmann
Entrevista para Business of Home
Trade Tales, Nova York, 8 de maio de 2026
